Hella Divindade Escandinava

Hella Divindade Escandinava
Hella Divindade Escandinava

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

O Poder Binário de Invocar Divindades

Século XXI e talz...

Tantos avanços na aceitação da diversidade, tantos retrocessos pelo medo do diferente!

Vivemos sem dúvida um tempo de dualidades incomensuráveis.

Como diziam os magos antigos o universo está em nós e nós somos parte dele. Logo faz sentido refletir o quanto desta dualidade está em nós. O quanto ainda somos limitados em nossa amplitude hipócrita cantada aos quatro ventos em nossos atos divulgados sem sensatez, principalmente nas mídias sociais.

Reconheço muito de mim mesma nesta parte do caminho. No outono de minha vida, contemplo reflexiva mais um inverno cravar suas últimas garras, estilhaçando as primeiras floradas da primavera e mostrando sua força ainda poderosa, única e desoladora!

Vejo-me hoje nestas contradições: algoz do que já fui vítima, cobrada por coisas que não são feitas por quem cobra, estendendo a mão para mais uma aflição que já foi a minha...

"E a roda vai girando vai girando! E a roda vai girando vai..."

Por cima por três minutos, por baixo 3 semanas. A Roda da Fortuna Imperatrix Mundi é implacável nos versos hereges de Carl Off, na vida na periferia de São Paulo e em qualquer lugar!

Os Deuses se manifestam o tempo todo e em toda a parte. Sua sutileza nos sinais é muito perspicaz. Uma espécie de inteligência sensível que combina a mais precisa das linhas de pensamento racional ao mais poderoso dos sentimentos: Ágape o amor divino!

Enquanto aqui - na terra dos mortais mentecaptos - seguimos nossa sina separando tudo: razão de emoção, ciência de saber, amor de sexo, como se viver por aqui fosse assim, fácil como uma questão com apenas duas alternativas. No conforto dos sistemas binários nos acomodamos com a falsa segurança de estabelecer apenas duas variáveis. A complexidade do cosmo não é esta. Jamais poderia ser!

O cosmo está em nós! Da mesma forma que você que agora lê este blog e ao mesmo tempo pensa em inúmeras coisas ao mesmo tempo: "quantas estações de metrô mesmo falta para eu descer?"; "quem ela está querendo cutucar com este texto?": "será que eu também sou um mentecapto?"; "hoje vou almoçar salada porque zoei a dieta a semana toda!"; "quem ela pensa que ela é para escrever estas coisas?"; "essa tal de wicca deve ser um barato!" - os Deuses também são vários em um só e tudo ao mesmo tempo. Inteligências muito superiores, atuam em múltiplas direções, em variados estados de consciência e em diversos planos astrais.

O recado é dado em um segundo e se você deixar de ouvir, pode até haver a gentileza de ser repetido por mais algumas vezes! Porém a o custo da desatenção, do medo, da hesitação e da ignorância são altos! É preciso ouvir! É preciso saber! É preciso querer! É preciso ousar! É preciso calar! Estas são as chaves da evolução no caminho mágico!

Chamar uma divindade por motivos frugais não é uma boa ideia.

Chamar o tempo todo também não.

Os atributos de uma divindade são inúmeros. Trata-se de uma energia muito superior e antiga, anterior a quase tudo nesta Terra! Damos nomes, faces, corpos, indumentárias, criamos histórias fantásticas. Mas elas são muito mais complexas do que o nosso entendimento possa dar conta. Toda e qualquer forma de representação não passa do humano, do demasiado humano, os Deuses não são humanos. Personificam a face que queremos por amor para que - quem sabe - possamos ouvir a mensagem.

Ao invocar divindades desde um desabafo na vida real ou nas mídias sociais, até rituais realmente estudados e escolhidos; dar nome de divindades aos seus animais; chamar pelas divindades em qualquer conversa banal... Enfim, o conselho que quero dar com todo o amor do meu coração é: por favor reflita com seriedade a respeito. Os Deuses tem bem mais tarefas do que resolver nossa incapacidade de lidar com os entreveros de nosso caminho.

Os Deuses não gostam de vitimização.

É entediante!

A mitologia nos mostra que os grandes campeões dos Deuses são aqueles que resolvem seus combates pessoais internos e externos se responsabilizando tanto pela celebração de seus êxitos quanto pelo aprendizado a partir de seus seus fracassos.

Claro que o desespero pelas injustiças do caminho nos tira a razão e é legítimo recorrer ao amor maior nos momentos mais difíceis.

Mas volto a insistir na reflexão profunda a cerca de qual divindade invocar em suas preces. Pergunte-se se de fato o chamado é legítimo; se é de fato o caso de dizer seu nome em voz alta ou escrever este nome. Quanto a citar nas mídias sociais é uma boa ideia pensar se de fato é legítimo perturba-la por tão pouco, reflita e estude sobre qual chamar nos momentos difíceis e faça-o para si se realmente for o caso. Não desperte forças das quais você não tem conhecimento - ou pior - tem meio conhecimento.

Tudo neste cosmo tem sua luz e - naturalmente - sua sombra.

E o nosso sombrio tem por péssimos hábitos a vitimização e a transformação do outro em algoz; sem admitir a possibilidade de haver contribuição de nossa sombra para a situação ter chegado ao ápice tanto da dor quanto da tristeza.

Maturidade é saber-se responsável por boa parte dos infernos que criamos e, ao invés de invocar os Deuses da justiça para resolver o que nós mesmos ativamos e fracassamos, melhor é seguir o nosso caminho com a consciência de quem também falhamos. Mais sábio é pedir força, luz e sabedoria para que alcancemos a solução por mérito nosso.

Mas se preferir, livre arbítrio é isso! Todas as religiões tem a mesma leitura: a escolha é nossa sempre!

Somos livres para rezarmos a qual divindade quisermos!

Porém quando a divindade invocada mostrar sua face, não se assuste se o preço mais alto será pago por quem a chamou!

Os olhos de faca dos Deuses são atentos e a oportunidade de aprendizado se repete todos os dias para quem está disposto a ouvir e parar de querer transformar os outros ou o mundo e perceber que a maior mudança é a que fazemos em nós mesmos.

Boas reflexões e enfrentamentos para todos!


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Wiccanianos são duoteístas

ouvindo sem parar "Children of The Sun" do Dead Can Dance, trilha sonora maior do Sabbat de Litha!

https://www.youtube.com/watch?v=J6aQEFzB3zQ

Quando me perguntam como é a minha religião - mesmo após 18 anos de prática que se completarão em algumas horas - ainda fico feliz com a oportunidade de falar sobre isto. Meu rosto ainda se ilumina e aquece como o Deus nesta época do ano, em sua forma de Semeador, o Sol e o meu sorriso brilha como a foice de prata da grande mãe a Ceifadora, a Deusa, a Mãe, a Lua.

Porque somos assim, nós praticantes da Wicca!

Somos duoteístas! Não somos politeístas como muitos gostam de nos ver!

Quando dizemos "os Deuses" isso, "os Deuses" aquilo, nos referimos sempre à Mãe e ao Pai, no princípio feminino e masculino da criação. Ambos essenciais à vida neste mundo, ambos polaridades de uma mesma energia regente.

Deusas, deuses, um, dois, milhares, um wiccaniano é movido a entender que estas são apenas formas de leitura humanas para tentar interpretar forças muito maiores e mais complexas do que o vago ideário mortal possa conceber. Para nós, este poder maior veste a face que quiser! Sua inteligência e poder são superiores e generosos o suficiente para adotar a forma que precisamos ver para entender suas mensagens e ensinamentos em um amor que transcende este e outros mundos. Um amor que alinhava a todos esses mundos e a todos nós, parte deles, na forma de desenhos que nossa extensão energética pode até conseguir tocar no êxtase da alma quando se propõe a compartilhar desta força, mas que nossas mentes e corpos não suportariam contactar, tamanha sua plenitude.

Dê a face que quiser, o nome ou os nomes que desejar, vemos que trata-se do mesmo amor! Forte e poderoso em todo o cosmo! Mas que - para nós praticantes do Seguir O Caminho Mágico - se personifica nestas épocas de festejos pelo retorno dos dias mais longos como a plenitude do Deus Sol em sua potência máxima e da Lua como recebedora desta energia fertilizando a Terra que se enche de vida!

Uma forma de visão que lembra muito as comunidades humanas primitivas, claro, e que pode ser interpretada cientificamente de inúmeras formas. Afinal os dias mais longos são um fenômeno típico do movimento aparente do Sol previsto para este hemisfério do planeta nesta época do ano. As consequências deste fenômeno astronômico são elementares e nossa espécie convive com elas desde quando éramos caçadores e coletores e vivíamos da observação destes detalhes. E vivemos assim sob esta configuração de significados por muito mais tempo do que como "civilizados".

Ser absolutamente pagão e viver sob os desígnios do sol, da lua e demais trânsitos celestes, são práticas que hoje são pouco prováveis, afinal nos tornamos viciados nos confortos tecnológicos que nos fizeram ter outras relações com as efemérides ao ponto de - alguns de nós - negá-las como a referência vital que foram por milhares de anos e para milhares de povos. Às vezes eu acho divertido ver este conhecimento valoroso ser ridicularizado e tenho adoração por discutir a respeito. Ser neopagão e wiccaniano em tempos como estes, de negação do complexo pela sua ridicularização e reducionismo para facilitar fugas das verdadeiras grandes questões existenciais humanas é um desafio e tanto. Vivenciar as práticas mágicas atuais como soma de todos esses saberes antigos e novos e reler esta energia é uma arte, não por acaso, alguns dos outros nomes desta religião são: A Arte ou a A Antiga Arte ou ainda A Grande Arte.

Ler a beleza da grande arte está em pequenos e grandes rituais desde ver o dia amanhecer mais cedo que nas horas do relógio, apreciar os jardins esbanjarem energia e viço, contemplar as chuvas tão poderosas, deixar fluir o calor maçante dos dias ensolarados, vagar nua pelas noites abafadas e as madrugadas frescas. Como estar alheio a isto, mesmo que seja pra reclamar e praguejar pelos excessos que todo o extremo de estação carrega? Imagine então o que é poder rever tudo isto sob uma nova lente, ver além do aparente, visualizar tudo com as variadas mensagens embutidas que lá estão, abrir a mente para estes preciosos conselhos e para o quanto podem contribuir para suavizar dos fardos do caminho mágico que é a vida?!

O que pode ser considerado fato em um wiccaniano é a busca por algo além do aparente espiritualmente e enxergar sempre a energia masculina e feminina embutida em cada um desses fenômenos buscando sempre o equilíbrio entre ambas para uma equação de paz interior. Desde o mais simples recado mágico escondido em uma situação aparentemente comum do correr do dia até reflexões complexas na madrugada.

Enxergamos o Pai Deus Sol e a Mãe Deusa Lua em toda a parte nesta Terra que eles amam. Gosto muito das leituras de alguns dos escritos sagrados a nós quando abordam este aspecto de nossos rituais. Em alguns desses escritos é possível interpretar que a Deusa é o aspecto feminino deste e de outros mundos mágicos e sagrados e seus são os mil nomes de Lilith na Suméria dos babilônicos à Brighid na Irlanda dos Celtas; de Shiva da Índia hinduísta à Mama Oclo no Peru dos Incas. Meus olhos ardem sempre que leio frases e invocações mágicas como "Viva a Mãe de Mil Nomes e das Mil Faces!", pois para mim estas são o esforço maior da Grande Mãe em seu amor absoluto em se fazer entender a nós, seus filhos.

De acordo com esses mesmos escritos é possível também interpretar que o deus é o masculino da mesma forma, o aspecto masculino do mundo mágico sagrado de Baal à Dagda, de Brahma à Manco Capac. O Pai dos Mil Nomes e Mil faces em seu igual esforço para nos fazer entender a todos nós filhos a benção que é este amor.

Por isso celebramos cada retorno do Sol em sua plenitude após o longo inverno em companhia da sabedoria poderosa da mãe. Longos são os aprendizados, sofreres e  rápidas as bençãos de cada parte do giro da Grande Roda da Vida e celebramos a todos na companhia dos elementais e encantados da terra, do ar, do fogo e da água, a cada Solstício, a cada Equinócio e a cada "Ponto de Ouro" entre eles totalizando os 8 Sabbats Sagrados do giro da roda da vida! Cada face da Lua e cada constelação zodiacal vão nos guiando a cada dia - não como sentença como tantos gostam de generalizar para nos atacar como se esta benção fosse uma fraqueza - mas como orientadores das tendências de cada época do ano e suas tipicidades para que possamos escolher do que fazer uso para melhor viver dignamente. Tão belo que é o céu como professor, orientador, conselheiro e a terra como condutora! Tão triste que deve ser viver sem esta possibilidade de contemplação do tempo e das coisas!

É uma alegria e uma honra inexplicáveis ter uma religião, ter a alegria de escolher e reescolher viver no Caminho Mágico todos os dias e poder ver e sentir esse amor estampado na face de cada pessoa que encontramos, no cair de cada folha, de cada gota de chuva, de cada estrela "cadente" no céu! Para mim estes são os retornos desta alegria e honra!

No reinado do Deus Pai Sol, O Semeador e da Mãe Lua A Fertilizadora, que se inicia, desejo de todo o coração que todos sejam abençoados com luz, calor, acolhida e a proteção do aspecto masculino e feminino do Divino Casal na grande força que nos une nesta terra! Que todos - dentro da escolha pela face deste amor que fizeram em seus caminhos - encontrem esta alegria e honra absolutas, como eu encontrei no meu caminho!

Feliz verão a todos!
Blessed be! Abençoados sejam!


terça-feira, 5 de setembro de 2017

A Arte de Seguir Honradamente Pelo Caminho (ou o clamor pelo fim do inverno)

Nos momentos difíceis, onde as poucas alegrias nem sequer se aproximam do peso das preocupações, um bom exercício para o praticante da Antiga Arte é se transferir mentalmente para os tempos de nossos amados ancestrais.

Quando confortos como fogões a gás, refrigeradores e umidificadores de ar não existiam e ir até o rio mais próximo (uma verdadeira empreitada de músculos e persistência na maior parte dos casos) era a única possibilidade de algum refresco para a cabeça fundida com o plantel seco e os animais morrendo de sede pela estiagem...

Sim esta sugestão de exercício já contém a visualização da dificuldade.

Porque mesmo com todos os itens tecnológicos a nosso dispor há a estiagem da alma, da saúde, da falta de vapor d'água nas cidades com seus rios entubados ou lotados de dejetos ou as duas coisas, a estiagem da falta de dinheiro, de trabalho, de amor, de compaixão, de respeito, de honra, típicos de nosso tempo como em tantas outros tempos que precediam o caos.

Nossos invernos neopagãos são diferentes, somos testados de modo diferenciado. Assim como nossos ancestrais aqui do Brasil eram testados com longas estações de seca e viam tudo pelo que lutaram por anos se esvair em uma "estiagem ruim" diante de seus olhos sem poder nada fazer, ou nossos ancestrais do norte, com o final das provisões de inverno chegando e o frio e a neve castigando os músculos cansados e a mente esgotada pela tristeza de viver sem ver o sol por meses.

Neste tipo de prática é possível trazer para si que somos testados pelos Deuses em nossa fé e força maior a conviver com a perda do que mais prezamos para que possamos emergir dos rigores da estação cada vez mais fortes, assim como o Grande Deus Cernunnos emerge e renasce das próprias cinzas no Ventre da Grande Mãe Terra, forte e invencível novamente após seu sacrifício ao merecer o amor dela por sua total devoção a Mãe de Toda a Vida!

Cerque-se dos incensos e cristais certos, das velas e sementes adequadas e entõe seus cantos de louvor a força dos antepassados que passaram pelo que passas agora nestas últimas semanas agonizantes de seca e preste homenagem aos bravos que lidavam com tristezas enormes e - mesmo assim - não se deixaram derrubar, pelo contrário, resistiram, insistiram e aí está você a descendência deles e a prova final de seu amor, força, honra e fé!

Salve a estiagem e que nos derrube para que mais fortes possamos nos levantar!

E se tivermos que morrer em nós mesmos para eliminar de uma vez por todas o que não nos serve mais que morramos então! Mas com dignidade e por um ideal maior! A Arte de Seguir Honradamente Pelo Caminho!

segunda-feira, 3 de julho de 2017

O Virar da Página

Como partir?

Onde encontrar forças para deixar o que foi cultivado, cuidado, acalentado e amado com tanto empenho?

Uma das coisas mais difíceis de aceitar é o que não conseguimos salvar.

Por que não quer ser salvo?

Pior!

Porque nem se quer se via em perigo!

E que não adianta ralhar, brigar, discutir, dizer ou sequer pensar.

Porque já está condenado em si mesmo e ali deve ser deixado como está, pois nem o adeus servirá de nada.

Simplesmente partir e deixar para trás sem sequer um adeus para o que tanto foi amado ou desejado traz uma sensação de incompletude que paira a beira do inconformismo assim como a perda paira a beira do desespero. Difícil evitar se deixar dragar.

Aceitar que há feridas que não vão se curar.

Que por mais que você ame ajudar, há o que não deve ser ajudado.

Tarefas que devem ser deixadas abandonadas.

Ciclos não fechados, pontas soltas, lacunas sem preencher, dores sem cura, gavetas semi abertas, pastas de dente apertadas ao meio, portas de carros mal fechadas...

O incompleto muitas vezes precisa ser deixado incompleto, o parágrafo não compreendido e ignorando virando a página.

Passado e futuro em seu ponto de ligação sem ligação.

Viro a página sem compreender ainda em todas as suas camadas o porquê de ter que ser assim, mas do antigo para o novo, Janus aconselha: "A passagem tem que se realizar pois a imcompreensão é o componente necessário para que a equação se ajuste de outras formas que não te competem entendimento ou ação."

Este duo de vozes ecoa em meu peito e me sacode a mente dos miolos!

E, cambaleando, sigo pelo caminho, deixando o incompleto agonizante ao abandono.

Que seja completado em seu devido tempo..

Por quem tiver que ser...

Pelo o quê tiver que ser...

SE tiver que ser!

Afinal quem disse que eu tenho que terminar tudo o que comecei?

Quem disse que tudo precisa ser completado, finalizado preenchido antes da partida para as próximas tarefas e aprendizados?

E se o aprendizado é justamente este?

Incompleto, interminado, abandonado ao meio?

Porque assim é!

Então que seja!

Eu estou completa!

Infeliz, vagante, sozinha e com um baita fracasso pra enfrentar todos os dias até o amor ferido deixar meu coração novamente.

Mas completa no que sou, no que quis, no que sempre quis e sempre vou querer.

E se - para atingir o que almejo completa e absolutamente - é necessário que eu deixe coisas incompletas para o equilíbrio da equação de minha existência...

"Sim Janus Deus! Já está feito!"




segunda-feira, 20 de março de 2017

Mabon Em Busca do Ponto de Ouro

A busca do equilíbrio é celebrada em muitos aspectos do Caminho Mágico e outros caminhos que com ele são trançados e performam os lindos desenhos da Deusa dos Dedos Ligeiros...

Lembro das minhas primeiras aulas de fotografia, onde meu professor buscava extrair de mim o vício nos dispositivos automáticos de minha câmera e me ensinar a paciência da elaboração da foto em "ponto de ouro".

Havia um tempo em que as máquinas fotográficas eram apenas de filme de rolo. Suas variáveis para compra se davam apenas das automáticas para as semiautomáticas e quantos milímetros de abertura comportavam para depois poder abarcar lentes objetivas com aberturas maiores.

Era um charme montar o equipamento, o click da lente no corpo da máquina, o ajuste do foco automático, contrastando com o foco manual atingido a dedo e a olho! O sinal de que o mecanismo de disparo poderia ser ativado porque a luz, o brilho e a luz estavam no ponto certo... "O Ponto de Ouro" era de dar ondas de choque de tanto prazer.

Chegávamos a comprar tripê e ficar longos minutos acertando para sol, objetiva, foco, velocidade de abertura da janela, iso e tantos outros mecanismos até atingir o ponto de ouro e o sinal de aviso sonoro ser ativado e finalmente o registro fotográfico ser realizado.

Hoje as máquinas digitais nos fazem pecar pelo excesso de fotos por minuto! Milhares de filmes de rolo seriam gastos e papel fotográfico utilizado para tanta foto em tão pouco tempo! Fortunas seriam deixadas nos laboratórios de revelação fotográfica caso esse advento não chegasse a nós. Ah sim a democratização do acesso a arte da fotografia foi maior! Sem dúvida! Mas ao mesmo tempo desaprendemos a arte do equilíbrio, da contemplação, da apreciação que antecedem ao acerto como éramos forçados a aprender com a busca pelo "ponto de ouro".

É o preço da contemporaneidade, muitos vão me dizer, vejo a ironia na cara dos mais jovens vendo-me como alguém que não aceita que envelheceu e que o que era considerado valor para a sua geração agora é piada e saudosismo teimoso...

Tenho uma máquina digital e adoro sua produção.

Mas nessas tardes douradas de outono... Anseio por tempo para armar o tripe e usar minha máquina analógica e registrar longamente um por de sol dourado através da arte do contemplar, medir, observar e pacientemente chegar ao equilíbrio da equação luz e sombra! Esse ponto de ouro e o prazer de encontrá-lo, máquina alguma vai tirar de mim.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Cruzando Águas Conhecidas



viciada em ouvir "Children of The Sun" do Dead Can Dance



Exausta até para as tarefas mais simples vejo mais um dia se erguer nublado, cinzento e úmido, combinando com o verão tropical do meu país e com o verão em mim.

É bom ver-se parte e todo ao mesmo tempo. Desta forma não se sente só ou descartada.

O privilégio de caminhar com a décima sétima roda passando por cima de mim é a certeza de que não aprendi como deveria. Não na profundidade necessária e sempre há mais camadas de entendimento, véus que a Deusa ergue graciosamente a cada esbat... A cada sabbat... A cada instante em que estamos dispostos a ver e a ouvir suas mensagens e sussurros...

ELA está conosco sempre! 

Muito provavelmente seja por isso que atravesso pelas mesmas águas. As mesmas questões novamente erguem-se perante minha nau como vagas gigantes e é inevitável sentir-me insatisfeita, incompleta, enganada pelas falsas certezas que tinha e perdendo cada estabilidade que acreditava ter.

 O filósofo poeta já disse "Amadurecer é perder as certezas..."

Ver tudo de novo por conta de repetições incontáveis faz com o desespero reveze com a fadiga e o silêncio. Não protesto mais como Ulysses em A Odisseia, largo o leme, entrego a minha nau aos ataques de Sila e permito que o que restar dela seja devorado por Caribidis mais uma vez. Já sei que não há o que fazer. Já sei que resposta virá de quem eu pedir socorro e já sei o que vou ver assim que as portas que bati se abrirem. É inevitável. Talvez se eu resistir menos, se chorar ou lamentar menos tudo termine mais rápido. O anel da mártir brilha em meu dedo...

Peça para que o que precisa ser absorvido finalmente seja e sim vá sem medo!

Eu realmente acreditei em minhas escolhas. Realmente acreditei que elas trariam o melhor para mim e não me arrependo de nenhuma delas. Ergo-me e enfrento o meu destino com resignação, silêncio, exaustão e honra. Que venha logo e pronto! Que se faça! Estou cansada! Que seja de uma vez!

O homem de vime queima calado. Talvez seja o que falta para o que se cumpra finalmente se faça.

Sempre me questiono sobre isso. O sacrifício. Já li sobre pessoas prestes a serem sacrificadas em outros períodos da história, o sacrifício de suas vidas de fato - seja pelo sagrado seja por outros motivos mais ligados à vaidade humana de calar o outro para se fazer valer em poder. Li muitos relatos em que as reações são muito variadas desde a resistência e o pavor que fazia com que em muitos casos, as bocas dos executados ainda falassem após a decapitação. Em outras leituras soube de uma estranha calma que tornou o feito da execução leve e pacífico. Sempre quis saber qual dessas reações seria a minha caso eu viesse a passar por isso. Por longo período desta vida tive a certeza de que seria a segunda. Por algumas vezes mudei de ideia e me vi praguejando a todos os que me condenavam, claro! Mas hoje acredito que seria a segunda não por calma, mas sim por alívio. Termine logo com isso... Ou algo assim.

Sem reflexão do porquê disto? Sem lição? Sem aprendizado?

O entendimento virá como sempre. Em camadas e com o tempo.

Finalmente aprendendo... Será?

Espero que sim.

Espero que seja o finalmente aprendendo de verdade e não mais um quase.

Só mais um dia na vida de uma típica bruxa brasileira.







quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Lammas: como dar o que já não existe mais para ser dado?



ouvindo o álbum "Earthborn" do Evergreen Refuge (Muito apropriado para afundar-se totalmente. obrigada!)



No dia em que todos os textos sobre um sabbat mágico dizem "ensine algo que aprendeu" ou "tenha gratidão pelo que conseguiu" ou então "dê algo de valor para ter algo de valor" eu me pergunto:

Como dar algo se a vontade que move não está aqui?

O Deus o faz a tempos incontáveis por amor!

Não vejo o ganho! Não vejo o amor!

Só porque não é dado exatamente o que pediu e como pediu não significa que não há amor...

Então estou sendo mimada? Me negando a dar só porque não recebi?

Não você deu muito! E recebeu muito! Mas ambos estão distantes do que você vê como dar e como receber.

Então sou vitimista, fatalista, dramática por insistir em arquétipos de felicidade e realização típicos de uma bruxa brasileira com 17 anos de caminho mágico...

Não.

...mas ainda presa às amarras da culpa e de falsas promessas como a promessa feita pelo sofrimento que compensa típicas dos outros 28 anos de vida cristãos. Vivo mais um momento difícil da roda onde o aparente é que não houve ganho neste ciclo e em muitos ciclos! E é inevitável a esta altura não pensar em que se trata de sobre giros em um mesmo lugar e sem evolução!

Não seria um legítimo caso de Prisioneira de arcano?

Muito provavelmente! Afinal as repetições finalmente terminaram e agora a penúria e o desespero são absolutos e até há perspectiva de alguma mudança mas muito distante do que é pedido a muito tempo! E não é promissor no sentido de curar ou resolver, no horizonte só aparenta haver mais dores e problemas a serem enfrentados com pouco ganho ou retorno da energia empenhada...

A falta de honestidade consigo mesma pode ser um bom início de auto diagnóstico!

Também muito provavelmente! Se eu fosse sincera comigo mesma não estaria fingindo sentir coisas que não sinto, fazendo mal feito coisas que não quero mais fazer, aceitando coisas incompletas diante do que eu pedi e me dediquei por merecer que viessem completas!

Como transmitir algum aprendizado disso?

Recorrer para o clássico "faça o que eu digo e não faça o que eu faço"? Ou então o meu favorito "sou boa em ensinar o que não faço?".

Talvez aprenda mais admitindo o que não consegue fazer.

Então vou conseguir vivificar o espírito de Lammas:


  • O autoconhecimento é essencial a qualquer passo no caminho mágico: seja honesta consigo mesma.

  • Verifique se realmente quer o que está pedindo, muito será movido para que chegue a você.

  • Faça frequentemente preces, dias e rituais apenas de agradecimento.

  • Transmita o que aprendeu para aprender mais, mas faça-o com sinceridade ou então não faça. Reproduzir redes falsas e frágeis facilitam o colapso.

  • Admita o quanto ainda não evoluiu em um aspecto mas, logo em seguida veja o quanto evoluiu em outro para equilibrar a energia e não se afundar no típico turbilhão cristão da culpa e do culto ao fracasso.

  • Mesmo ainda não sendo honesta consigo mesma, mesmo vendo seus pedidos não sendo atendidos ou atendidos de maneira insatisfatória e gerando mais problemas do que a felicidade que acreditava alcançar com eles, siga em frente nO Caminho. Reflita se de fato esses devem ser seus pedidos ou se o que te moveu a pedir é de fato o que quer ou o que realmente corresponde a quem você realmente é!


O que nos faz retornar ao princípio...

Está bem você terá o que quer:

Ainda não sou honesta comigo mesma!

Ótimo!

Só mais um dia na Roda da Vida de uma típica bruxa brasileira!